Taxa para negócios de um ano, descontada a inflação, foi abaixo de zero na sexta-feira (8) 

 

Vinicius Torres Freire

SÃO PAULO

O Brasil tem agora juros reais negativos. Pelo menos na sexta-feira passada (8), tinha. A taxa real de juros futuros para negócios de um ano desceu a -0,22% ao ano (trata-se da taxa do contrato de swap de juro de 360 dias descontada a expectativa de inflação para os próximos 12 meses).

Essa é a taxa básica do atacadão do mercado de dinheiro, que acaba por balizar o custo das demais operações. A taxa básica da economia, a meta para a taxa Selic, definida pelo Banco Central, baixou para 3% ao ano na semana passada.

A taxa do contrato de swap para 360 dias estava em 2,61% na sexta-feira passada. O mercado parece esperar, pois reduções maiores no custo básico do dinheiro. O próprio Banco Central disse que pode reduzir a meta da Selic para até 2,25% ao ano, em junho.

As taxas de prazo mais longo, porém, continuam altas desde o pânico de março nos mercados financeiros do mundo e daqui também. A diferença entre operações de 7 anos e 1 ano esteve em pouco mais de 2 pontos percentuais de dezembro de 2019 a fevereiro de 2020. Em março, chegou a passar de 5 pontos.

 

Baixou um pouco desde então, mas flutua perto de 4,5 pontos (na sexta-feira, de 7,5% ao ano para o prazo de 7 anos e de 2,6% ao ano para 1 ano).

Essas taxas indicam o custo para o governo tomar empréstimos, para financiar seus déficits e rolar suas dívidas. São também o piso do custo do dinheiro para empresas que pretendem obter financiamentos no mercado de capitais, por exemplo. Quanto maiores, claro, menos atrativo se torna um investimento privado e mais caro o financiamento da dívida pública.

Taxas de juros mais altas no futuro podem indicar um temor de inflação, uma percepção de risco maior de calote ou qualquer outra combinação de sinais de degradação da situação macroeconômica de um país.

Caso a taxa de curto prazo chegue a zero ou perto disso (sem descontar a inflação) e as taxas longas continuem altas, resta ao Banco Central uma medida extraordinária, ao menos no Brasil. Isto é, a compra de títulos de longo prazo (o que aumenta seu preço e reduz a taxa de juros —é a mesma coisa), diminuindo o custo de dinheiro no médio e no longo prazos também para o governo. Na prática, o BC subsidiaria o Tesouro com a “criação de dinheiro” e levaria o financiamento da dívida para o curtíssimo prazo.

Em breve, o BC terá esse poder, concedido por uma emenda constitucional. Os críticos desse tipo de política argumentam que tal medida pode provocar inflação, no médio prazo, porque tende a provocar uma fuga do real, como uma fuga de capitais do Brasil, e uma grande desvalorização da moeda brasileira, além de dar a impressão de que o governo pode gastar e elevar sua dívida quase sem limites.

A Selic é a taxa das operações de empréstimos entre bancos, grosso modo. A meta da Selic, definida pelo Banco Central a cada mês e meio, por aí, é a taxa de juros que a autoridade monetária (o BC) julga adequada para manter a taxa de inflação (IPCA) na meta. O BC na prática define essa taxa intervindo no mercado de dinheiro (vendendo e comprando títulos públicos no mercado secundário).

Nota: a taxa de juros real ficou negativa no dia 22 de abril, na verdade zerada, na prática, em -0,03% devido a uma oscilação mais acidental do mercado. Não há registro de taxas negativas nos últimos 20 anos (e, provavelmente, não deve ter havido desde a estabilização da moeda, em 1994).​

 

Folha de S.Paulo

 

 

Fonte:sintracimento.org.br