Astronauta Marcos Pontes será ministro da Ciência do governo Bolsonaro

Desde a fusão do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) com o das Comunicações em 2016, boa parte da comunidade acadêmica pedia pela separação. A proposta ganhou força não só pela simbologia mas também por conta do corte de verbas federais para o financiamento de projetos, que desde 2013 caiu quase pela metade.
Primeiro astronauta brasileiro a ir para o espaço, em 2006, Pontes chegou a ser cotado a vice de Bolsonaro. Ele é o segundo militar escolhido para compor novo ministério. O primeiro foi o general Augusto Heleno, para a Defesa.
Nesta quarta (31), durante palestra para jovens em Manaus, Pontes disse estar vivendo um “momento muito, muito especial” e pediu à plateia que comemorasse com ele. Em seguida, o militar da reserva agradeceu a Bolsonaro pela escolha e “pela confiança depositada”.
“Estou a serviço do país. A confiança é mútua, ninguém faz nada sozinho. Agora é juntar e unir os brasileiros em prol dessa bandeira. Vocês têm um parceiro que vai defender isso e que vai servir a comunidade. Líder não comanda, líder ajuda a servir.”
Pontes enalteceu o ministério, afirmou que a tecnologia “é importante em todas as áreas” e prometeu trazer o assunto “mais próximo do dia a dia”, em sintonia com o que costuma dizer Bolsonaro.
Também disse que, a exemplo do juramento feito na Academia da Força Aérea, combaterá “inimigos internos e externos com o mesmo sacrifício de vida”.
O programa de governo de Bolsonaro registrado no TSE afirma que é preciso buscar parcerias com empresas privadas para transformar ideias em produtos.
Novo ministro terá desafio de recompor orçamento do MCTI
Montante do orçamento
do MCTI que foi empenhado*
Investimentos em
educação superior no país
Em R$ bilhões
Em R$ bilhões
Projeção do
orçamento
75,4
5,51
31,8
3,85
2008
2019
2008
2017
64,3%
do total investido em educação
vai para Ensino Superior
De onde vem o investimento
governamental em ciência e tecnologia
Em %
0,20
0,30
0,80
1,50
2,10
3,10
4,40
7,70
9,90
17,20
Secretaria de Assuntos Estratégicos
Min. das Comunicações
Min. de Minas e Energia
Min. da Defesa
Min. do Desenv., Indústria e Comércio Exterior
Min. do Planejamento, Orçamento e Gestão
Min. da Saúde
Min. da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
Min. da Educação
52%
do total do investimento
do país vem do governo
- R$ 34 bilhões
- foram investindo pelo governo federal em C&T em 2016
- “Isso gera riqueza, desenvolvimento e bem-estar para todos. Os melhores pesquisadores seguem suas pesquisas em mestrados e doutorados próximos das empresas. O campo da ciência e do conhecimento nunca deve ser estéril”, diz o texto.
- O presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e professor de física da UFRJ, Luiz Davidovich, diz que espera que o ministro ouça a comunidade científica, que já elaborou “várias propostas de políticas de Estado” que podem ser aproveitadas.
- Para o físico, a incorporação da área de ensino superior ao MCTI é uma surpresa, mas pode ter vantagens por haver convergência nos temas. “Mas não se pode afastar a educação superior da educação básica”, alerta. Ele cita o exemplo de programas de pós-graduação direcionados para professores da educação básica.
- “Nessa área, há uma diversidade muito grande. Só 25% dos alunos estão em instituições onde há pesquisa. Das instituições privadas, as católicas e o Mackenzie são exemplos de onde há pesquisa, mas muitas outras não fazem. Se isso se concretizar, é uma área que o MCTI nunca conheceu. É um desafio possível, mas a carga é muito pesada.”
- Ainda há a questão da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), fundação vinculada ao MEC e que tem papel importante na avaliação de programas de pós e no financiamento de bolsas de pesquisa. “É importante preservar esse trabalho”, diz Davidovich.
- Outro desafio de Pontes é recompor o orçamento do ministério, diz Fernando Peregrino, do Confies (conselho de fundações de apoio às Instituições de ensino superior). “A queda é de 40% em comparação a quatro, cinco anos atrás. É uma atividade dispendiosa, mas os benefícios são grandes”, afirma.
- “Marcos Pontes é uma pessoa de perfil técnico, conhecedora de tecnologias aeroespaciais e cujo currículo suplanta alguns ministros já escolhidos para a pasta e que não tinham nada a ver com a área”, diz Peregrino, que é doutor em engenharia pela UFRJ.
- Ele vê como pontos positivos no pensamento de Pontes a ideia de desburocratizar a realização de pesquisa no país, como na importação de insumos e da papelada para fazer pesquisas de biodiversidade.
- Em resposta a questionamentos da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e da ABC, Bolsonaro disse na semana passada que a provável escolha por Pontes se devia à meritocracia, e não ao “toma lá, dá cá”.
- Segundo a carta enviada à SBPC, o astronauta pediu que o governo fosse agressivo na estratégia de investimento na área e lembrou que países desenvolvidos investem até 3% do PIB em ciência, tecnologia e inovação (CT&I) —hoje, o Brasil investe cerca de 1%. A meta é chegar com ao novo patamar.
- Para o então candidato à Presidência era preciso “garantir que os resultados práticos da tecnologia cheguem à população e no setor econômico, justificando os gastos públicos perante o povo (dono do dinheiro), e motivando o investimento privado.”
- Bolsonaro disse que não há mais espaço para que a área de Ciência e Tecnologia seja “comandada de Brasília e dependente exclusivamente de recursos públicos” e enaltece empreendedorismo e o desenvolvimento científico em parceria com empresas.
- A meta seria atingir entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões de orçamento para a área até o fim do mandato. “Nós passamos por um momento muito difícil de crise no país, […] mas CT&I não é gasto, é investimento”, diz.
- O orçamento aprovado para 2018 foi de R$ 4,6 bilhões.
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QUEM É MARCOS PONTES
- Nasceu em Bauru (SP). É tenente-coronel-aviador, piloto da Força Aérea Brasileira e engenheiro aeronáutico formado pelo ITA, com mestrado em engenharia de sistemas pela Naval Postgraduate School, em Monterrey, Califórnia.
- Foi incorporado à classe de astronautas da Nasa em 1998. Em seu período como astronauta ativo da agência espacial americana, Pontes passou boa parte do tempo servindo não só como interface entre a Agência Espacial Brasileira e o programa da Estação Espacial Internacional mas também como representante da própria Nasa em outras partes do programa.
- Passou sete anos (1998 a 2005) no Centro Espacial Lyndon Johnson da Nasa, em Houston, EUA, familiarizando-se com todos os detalhes de como se voar no complicado ônibus espacial.
- Em 29 de março de 2006, decolou de uma base no Cazaquistão rumo à Estação Espacial Internacional, com Pavel Vinogradov, da Rússia, e Jeffrey Williams, dos Estados Unidos. Passou dez dias no espaço a um custo de US$ 10 milhões ao governo.
- Fonte: Folha de S.Paulo, 5 de novembro de 2018.
- Fonte: sintracimento.org.br