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Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Ladrilhos Hidráulicos, Produtos de Cimento, Fibrocimento e Artefatos de Cimento Armado de Curitiba e Região

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Entrelinhas Vermelhas reúne vozes da luta dos trabalhadores em edição especial

A edição do Entrelinhas Vermelhas desta quinta-feira (22) foi ao ar como um balanço analítico das principais entrevistas realizadas pelo programa em 2025, tendo como fio condutor a luta da classe trabalhadora. O programa retoma falas de dirigentes sindicais, lideranças populares, parlamentares e acadêmicos para construir uma leitura crítica sobre as transformações recentes no mundo do trabalho brasileiro.

Mais do que uma retrospectiva, a edição especial propõe uma síntese política: as diferentes frentes de luta — urbana e rural, formal e informal — estão interligadas por um mesmo processo de precarização e disputa de projeto de país.

https://youtu.be/HvxxKNzskLM

Plataformas digitais e a desconstrução do “mito do emprego”
Um dos destaques do programa é a entrevista com representantes dos trabalhadores entregadores por aplicativo, que desmontam a narrativa de que as plataformas digitais teriam criado empregos. Segundo os sindicalistas ouvidos, as empresas de aplicativo substituíram vínculos formais por relações precárias, transferindo riscos e custos aos trabalhadores.

A nova edição abre com um depoimento contundente de Valter, representante dos entregadores por aplicativo no Rio Grande do Sul. Ele denuncia a precarização extrema imposta pelas plataformas digitais: “Em 2010, ganhávamos R$ 10 por entrega de 3 km. Hoje, são R$ 6,50 — e trabalhamos 16 a 18 horas por dia”. Para ele, as empresas não criaram empregos, mas transformaram postos formais em relações informais via MEI, sem direitos, sem seguro e sem proteção. “Quando um entregador morre na rua, a empresa só pergunta: ‘Pelo menos ele entregou o lanche?’”, questiona, resumindo a lógica perversa que coloca o lucro acima da vida.

A queda abrupta da remuneração por entrega, a intensificação da jornada — que chega a 16 ou 18 horas diárias — e a ausência de proteção social compõem um quadro de vulnerabilidade extrema. O relato evidencia que a informalização não é um efeito colateral, mas um elemento estrutural do modelo de negócios das plataformas.

Trabalho rural, gênero e poder sindical
Outro eixo central da edição é a luta das trabalhadoras rurais, a partir da entrevista com Vânia Marques, primeira mulher a presidir a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) em 61 anos de história. A dirigente situa sua eleição como resultado de décadas de enfrentamento ao machismo estrutural no movimento sindical e na sociedade brasileira.

A entrevista destaca os avanços e desafios da participação feminina no campo. Ela lembra que, no passado, mulheres precisavam se passar por homens para se filiar ao sindicato. Hoje, representam 60% da base associativa nacional — chegando a mais de 70% no Nordeste. A Marcha das Margaridas, em homenagem à líder assassinada Margarida Alves, é apontada como marco de visibilidade e organização política: “É a maior mobilização de mulheres da América Latina”, afirma Vânia, destacando sua dupla pauta — interna (igualdade no movimento) e externa (políticas públicas para famílias rurais).

O programa articula gênero, trabalho e política pública, mostrando como a pauta das mulheres rurais extrapola o sindicalismo e incide sobre soberania alimentar, meio ambiente e direitos sociais.

MST, terra e a violência estrutural no campo
A entrevista com Gilmar Mauro, da direção nacional do MST, insere a questão agrária no centro da análise. Ao desmontar a imagem criminalizada do movimento, Mauro reconstrói a história da concentração fundiária no Brasil e a associa a um projeto econômico baseado na exportação de commodities, sustentado por recursos públicos e isenções fiscais.

Mauro rebate a narrativa criminalizante contra o movimento e contextualiza historicamente a violência no campo. “O Brasil nunca fez reforma agrária porque a estrutura fundiária serve ao agronegócio exportador, financiado com recursos públicos”, explica. Ele alerta que, enquanto 45 milhões de hectares são destinados à soja, apenas 10 milhões produzem alimentos para o povo. Para Gilmar, a reforma agrária hoje deve ser popular, agroecológica e voltada à soberania alimentar — e é essencial para combater a inflação dos alimentos, que “derruba governos” e atinge diretamente as classes trabalhadoras.

O diagnóstico é direto: a ausência histórica de uma reforma agrária efetiva aprofunda desigualdades, alimenta a violência no campo e compromete a segurança alimentar. A edição enfatiza que a reforma agrária, longe de ser uma pauta do passado, é apresentada como resposta contemporânea à crise ambiental, à inflação dos alimentos e ao modelo predatório do agronegócio.

Redução da jornada e disputa de hegemonia
O debate sobre a redução da jornada de trabalho ocupa espaço central no programa, reunindo o presidente da CTB, Adilson Araújo, a deputada Daiana Santos (PCdoB) e dirigentes sindicais do comércio. A proposta de reduzir a jornada para 40 horas semanais, com dois dias consecutivos de descanso, é tratada como parte de uma luta histórica e internacional.

Diana apresenta seu projeto de lei que garante dois dias consecutivos de descanso remunerado, especialmente para o setor do comércio, onde farmacêuticos e supermercadistas chegam a trabalhar 16 horas seguidas. “Essa não é só uma luta sindical — é humanitária”, afirma Jairo Araújo, lembrando que a escala atual data de 1932 e está defasada diante dos avanços de produtividade e tecnologia.

As falas destacam que o Brasil figura entre os países com jornadas mais longas do mundo, apesar do aumento da produtividade e da concentração de renda. O programa articula a pauta da jornada com saúde, convivência familiar e democratização do tempo, apontando o fim da escala 6×1 como uma reivindicação capaz de mobilizar amplos setores da classe trabalhadora.

Informalidade, pejotização e crise da seguridade
A edição também incorpora uma análise estrutural do mercado de trabalho, com destaque para a informalidade persistente. Economistas e dirigentes alertam para os impactos desse modelo sobre o financiamento da Previdência e da seguridade social, classificando-o como uma bomba-relógio para o futuro.

José Dari Klein, professor da Unicamp, encerra a edição com uma análise estrutural sobre o mercado de trabalho. Ele desmonta o mito do “empreendedorismo” ao mostrar que o crescimento do MEI esconde relações de emprego disfarçadas: “São assalariados sem carteira, subordinados a algoritmos ou patrões”. Com 12 milhões de MEIs ativos contribuindo com apenas 5% do salário mínimo para a Previdência, Dari alerta: “É uma bomba-relógio para a seguridade social”. Ele defende que a luta por formalização, direitos e valorização do trabalho assalariado é condição para sustentar um sistema de proteção baseado na solidariedade intergeracional — e não na exclusão.

Ao relacionar pejotização, reforma trabalhista e fragilização sindical, o programa sustenta que a disputa não é apenas por direitos imediatos, mas pela própria sustentabilidade do pacto social construído ao longo do século XX.

Síntese política e horizonte de mobilização
Ao reunir esses diferentes temas, o Entrelinhas Vermelhas constrói uma leitura integrada da conjuntura: a precarização do trabalho, no campo e na cidade, é resultado de escolhas políticas e econômicas que podem — e devem — ser enfrentadas com organização e mobilização social.

A edição especial reforça o papel do Portal Vermelho como espaço de contra-narrativa e reflexão estratégica, apontando que as lutas de 2025 não são fragmentadas, mas partes de um mesmo conflito central entre capital e trabalho no Brasil contemporâneo.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2026/01/22/entre-linhas-vermelhas-reune-vozes-da-luta-dos-trabalhadores-em-edicao-especial/

 

Fonte:sintracimento.org.br

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