18 de março de 2026
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Guerra do Irã vai impedir queda do juro no Brasil? Entenda o que é a Selic e como ela afeta o seu bolso

O tão aguardado ciclo de queda dos juros no Brasil — que muitos esperavam que começaria nesta quarta-feira (17/3) — pode não mais acontecer agora, ou ser mais lento do que se imaginava.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) define nesta quarta-feira a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic. Desde junho do ano passado, a Selic está em 15% — seu patamar mais alto em quase 20 anos.

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O motivo dessa alta era a preocupação com a inflação brasileira, que dava sinais de que poderia ultrapassar a meta tolerada no país, de 4,5% ao ano. Como as expectativas de inflação vinham caindo esse ano, esperava-se que o juro — principal instrumento das autoridades monetárias para segurar aumentos de preço na economia — também caísse.

O próprio Banco Central havia dito em janeiro, a sua primeira reunião deste ano, que os juros poderiam começar a cair agora em março.

“O comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, disse a ata da reunião do Copom da ocasião.

No entanto o “cenário esperado” citado na nota não se confirmou. Em 28 de fevereiro, os EUA e Israel atacaram o Irã, dando início a uma guerra que vem provocando aumento no preço internacional do petróleo, diante das incertezas sobre o fornecimento global de combustíveis. Antes da guerra, o preço referência do barril de petróleo estava abaixo de US$ 80 — agora ele tem sido cotado acima de US$ 100 em vários dias.

E essa incerteza já teve repercussões na economia brasileira. A Petrobras anunciou na semana passada o aumento do preço do diesel — para colocar os preços domésticos em linha com os custos internacionais. E o governo federal anunciou a isenção que alguns tributos, na tentativa de conter grandes aumentos de preço.

O temor do governo é que, se a guerra durar por muito tempo e o preço internacional do petróleo seguir em patamar elevado, a alta de combustíveis no Brasil provoque inflação. Combustíveis são um componente importante no preço de diversos produtos, como alimentos.

“Estamos dizendo em alto e bom som que estamos fazendo um sacrifício enorme aqui, uma engenharia econômica, para evitar que os efeitos da irresponsabilidade das guerras cheguem ao povo brasileiro”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada, ao anunciar as medidas do governo.

Desde o começo da guerra no Irã, agentes de mercado passaram a acreditar que haverá aumento da inflação no Brasil.

O mais recente boletim Focus do Banco Central — que reúne expectativas de mais de cem instituições financeiras do Brasil — divulgado na segunda-feira (17/3) mostra que o mercado espera que a inflação IPCA termine o ano em 4,1%. Há uma semana, a previsão do mercado era de 3,91%.

Já a expectativa do mercado para a Selic no final de 2026 subiu de 12,13% para 12,25% em uma semana. Isso significa que se o mercado entende que o ciclo de queda dos juros será menos intenso do que se previa antes da guerra.

Entre corretoras havia uma expectativa antes do início da guerra de que haveria um corte de 0,5 ponto percentual nos juros brasileiros. Esta semana algumas instituições revisaram suas previsões para um corte mais gradual, de 0,25 ponto percentual. E outras já esperam que o Copom sequer promova qualquer corte.

“Acreditamos que o Copom manterá a taxa Selic em 15% nesta semana”, diz um relatório da XP publicado na segunda-feira. “Acreditamos que, se o Copom não estiver confiante para cortar a taxa de juros em 0,5 ponto percentual, é melhor deixá-la inalterada e fazê-lo com mais embasamento em abril.”

Mas afinal, o que é exatamente o juro Selic e como ele afeta na prática o bolso das pessoas?

O que é a taxa básica de juros?

A taxa Selic (sigla para Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) serve como referência para todas as taxas de juros do mercado brasileiro e é definida pelo Copom, grupo composto pelo presidente e diretores do Banco Central. Eles se reúnem para definir a trajetória da Selic.

A Selic é o principal instrumento de política monetária usado pelo Banco Central para controlar a inflação. O Banco Central tem autonomia em relação ao governo federal para definir a Selic.

Quando a taxa sobe, os juros cobrados em financiamentos, empréstimos e no cartão ficam mais altos e isso desencoraja o consumo — o que, por sua vez, estimula uma queda na inflação. Por outro lado, se a inflação está baixa e o BC reduz os juros, isso barateia os empréstimos e incentiva o consumo.

Para definir o que fazer com a Selic, o BC avalia as condições da inflação, da atividade econômica, das contas públicas e o cenário externo — sempre com o objetivo de manter a inflação dentro da meta.

O instrumento é usado por todos os governos e autoridades monetárias. O Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, define os juros básicos da economia americana. O Banco Central Europeu faz o mesmo com os juros nos países que compõem a zona do euro.

Desde a pandemia, o mundo passou por um aumento da inflação — como reflexo de desequilíbrios na cadeia de produção combinados com um aumento do consumo. Nesses anos, a inflação bateu recorde de mais de quatro décadas em países europeus e nos EUA.

No Brasil, um ciclo de alta começou em março de 2021 e durou até agosto de 2023, com escalada do juro de 2% para 13%. Por um ano depois disso, o juro chegou a cair para 10,5%.

Mas desde setembro de 2024, o juro vem subindo, no atual ciclo de alta. Foram oito aumentos consecutivos na Selic, atingindo em junho do ano passado o patamar de 15%, que se mantém inalterado desde então. Esse nível é o maior registrado no Brasil desde julho de 2006.

O objetivo do Copom é fazer a inflação brasileira ficar dentro da meta, que também é definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O que é a meta de inflação?

O regime de metas de inflação, o câmbio flutuante e a meta fiscal compõem o chamado “tripé macroeconômico”, anunciado em 1999 como a nova estrutura da política econômica brasileira.

Isso depois de o Brasil ter superado, com o Plano Real (1994), um período traumático de hiperinflação, durante o qual os preços chegavam a aumentar 80% em um único mês.

A ideia da meta é que uma inflação previsível, estável e baixa possa ajudar a economia a crescer mais, reduzindo as incertezas.

Se não houvesse aumento nos juros, as pessoas estariam expostas à inflação alta, o que provocaria uma queda nos padrões de vida de todos. Os preços de bens e serviços subiriam, e os salários das pessoas não acompanhariam essa alta.

A meta, inicialmente fixada em 8% ao ano em 1999, foi sendo gradualmente reduzida ao longo dos anos. Para 2026, o Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu a meta de inflação anual em 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 pontos percentuais. O que significa que o CMN “tolera” uma inflação de 4,5% em 2026.

Antigamente o cumprimento da meta era avaliado ao final de cada ano. Mas desde 2024, a meta é contínua, ou seja, precisa ser cumprida mês a mês. A meta é considerada descumprida quando a inflação acumulada em doze meses se desvia por seis meses consecutivos do intervalo de tolerância.

Quando ela é descumprida, a autoridade monetária precisa publicar uma carta e uma nota técnica explicando os motivos do desvio da inflação, as providências para assegurar o retorno aos limites estabelecidos e o prazo estimado desse retorno.

Efeitos de juros altos na prática

Juros elevados têm dois efeitos claros no cotidiano das pessoas:

  • Fica mais caro pegar dinheiro emprestado
  • Torna-se mais atraente poupar e investir dinheiro em renda fixa

Sobre empréstimos, juros altos afetam principalmente pessoas que tomam financiamentos para comprar casa ou carro — e também consumidores que têm dívidas com cartão de crédito.

O mesmo acontece com empresas: juros altos não incentivam tomada de empréstimos para realizar investimentos.

Se há menos investimentos, geram-se menos emprego e, consequentemente, renda.

E governos também sofrem: juros elevados prejudicam as finanças públicas, já que os países também tomam empréstimos ao emitir títulos de dívida (uma das formas como governos se financiam — a outra é arrecadação de impostos).

Juros mais altos acabam sendo vantajosos para quem tem dinheiro para emprestar e investir. Mas é preciso tomar cuidado. Os investimentos e poupanças precisam ter taxa de retorno superior à inflação para que haja um ganho real.

Por outro lado, para quem não tem dinheiro guardado, a vida fica bem mais difícil, e o fosso entre ricos e pobres tende a aumentar. Por isso, quando os juros estão elevados, a desigualdade sobe.

“Classes de renda inferiores se prejudicam mais com maiores taxas de inflação já que não contam com instrumentos de proteção financeira”, diz nota do ministério da Fazenda que explica o regime de metas do país.

* Com informações de Luis Barrucho

CORREIO BRAZLIENSE

https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2026/03/7378129-guerra-do-ira-vai-impedir-queda-do-juro-no-brasil-entenda-o-que-e-a-selic-e-como-ela-afeta-o-seu-bolso.html

 

Fonte:sintracimento.org.br

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