Jornadas 6 x 1, 5 x 2 ou 6-7
Um dos temas mais quentes do momento se refere à substituição obrigatória (por lei) da jornada 6 x 1 pela 5 x 2, que traz consigo a redução da atual carga horária de trabalho de 44 para 40 horas semanais.
A partir dessa premissa têm surgido indagações diretas (por vezes acompanhadas de defesas incisivas para um lado ou de outro) recheadas de simplicidade para algo de extrema complexidade, do tipo:
– Isso é bom ou ruim? É muito ou pouco? Traz vantagens ou prejuízos?
Para responder de maneira singela a essas indagações para algo absolutamente complexo poderíamos nos valer dos ensinamentos de um antigo conto chinês que com simplicidade diz: talvez.
O conto se dá a partir do seguinte enredo:
“Era uma vez um fazendeiro chinês cujo cavalo fugiu. Naquela noite, todos os seus vizinhos vieram para consolá-lo e lhe disseram: Sentimos muito que seu cavalo tenha fugido. Que pena.
Ao que o fazendeiro lhes respondeu: talvez.
No dia seguinte, como num passe de mágica, o cavalo voltou trazendo consigo mais sete cavalos selvagens. Tal fato fez com que os vizinhos retornassem à casa do fazendeiro para agora lhe dizer: Que sorte! Que reviravolta incrível! Agora você tem oito cavalos!
O fazendeiro serenamente lhes disse novamente: talvez.
Noutro dia o filho do fazendeiro tentando domar um dos cavalos caiu e quebrou uma perna. Outra vez os vizinhos se apresentaram, agora, com um direcionamento quanto à uma má-sorte dizendo: Que acontecimento deveras ruim se abateu ao seu filho.
Ao que, calmamente, ele retrucou: talvez.
Mais um dia e outra novidade. Desta vez oficiais do Exército vêm buscar o filho do fazendeiro para recrutá-lo à guerra, porém, deixam de fazê-lo justamente porque ele se encontra debilitado, com a perna quebrada. Como de costume, todos os vizinhos aparecem e agora dizem: Que ótimo!
E como de costume ele responde: Talvez.”
Perguntas como essas em verdade pouco auxiliam ao debate. Têm cabeça analógica voltada ao século passado, além de muitas vezes se valerem em suas respostas de “argumentos de torcida”. Não traduzem a complexidade necessária para o alcance de boas respostas, que exigem “perguntas-prompt”, ou seja, aquelas que não são apenas perguntas, mas algo como instruções estruturadas que incluem contexto, papel, objetivo e formato de saída.
Estamos no século 21. Desprezar isso é puro saudosismo, sendo que dada a ineficácia das perguntas analógico-binárias acima transcritas, travestidas de simplicidade, o resultado pode ser uma resposta-digital muito além do “talvez” e totalmente avessa às expectativas iniciais, algo como: 6-7.
Você sabe o que é 6-7?
A expressão 6-7 se tornou um meme entre jovens do mundo todo e foi eleita “Palavra do Ano” pelo site Dictionary.com.
Essa “gíria ganhou força especialmente quando criadores de conteúdo começaram a usar esse trecho em montagens de basquete, em especial com LaMelo Ball, jogador da NBA que mede 6 pés e 7 polegadas, aproximadamente 2,01 metros. A associação entre a altura dele e a frase da música virou meme e foi replicada em milhares de vídeos.
Carolina Fortes, mãe brasileira que mora nos Estados Unidos, explicou num post que o fenômeno começou justamente com esse uso repetido do trecho da música e com a brincadeira em torno da altura do jogador. A partir daí, os jovens passaram a falar ‘6-7’ em vários contextos, muitas vezes de forma totalmente sem sentido:
‘Que horas são? 6-7.
Quanto deu? 6-7.
O que você está fazendo? 6-7’.
A gíria acabou virando uma espécie de resposta automática ou piada interna entre adolescentes. Ela reforça que não há significado oculto ou código secreto por trás da expressão: é apenas uma brincadeira que viralizou e passou a aparecer em situações fora do contexto original da música ou do basquete”. [1]
Logo, todo cuidado é pouco para não termos como resposta às perguntas “simples” quanto à alteração da jornada: 6 x 1 ou 5 x 2 um também “simples” 6-7.
Como fugir dessa armadilha?
Obrigatoriamente temos de enxergar o todo e não partes isoladas. Não podemos ficar presos a caminhos estreitos que nos direcionam a um destino binário que obrigatoriamente traz consigo exclusões automáticas em razão de escolhas personalíssimas, algo como: “se eu tenho razão, você não tem”. “Se estou certo consequentemente você está completamente errado” e ponto final, condição fértil à criação de teorias da conspiração ou fake news.
Seguir nesta linha é algo próximo à distopia orwelliana, onde “o Ministério da Paz era responsável pela guerra; ao Ministério do Amor cabia manter a lei e a ordem. O Ministério da Pujança era responsável por questões econômicas e o Ministério da Verdade era responsável por notícias, entretenimento, educação e belas artes. Seus nomes em novilíngua eram, respectivamente, MiniPaz, MiniAmor, Mini Puja e MiniVer”. [2]
Será que é assim mesmo que as coisas devem ser analisadas? Pela simples exclusão de propostas, onde um só tem de estar certo e o outro errado?
Não estaríamos nos instalando num MiniVer?
Se lermos com atenção “tão somente” o conteúdo daqueles que defendem a redução chegaremos facilmente à conclusão de que esse é um bom caminho, não apenas porque trabalhar menos é sempre melhor, mas, porque “tecnicamente” a viabilidade apresentar-se-ia eficaz. Veja-se, por exemplo, o que diz o Ipea:
“Os custos de uma eventual redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais seriam similares aos impactos observados em reajustes históricos do salário mínimo no Brasil, o que indica uma capacidade de absorção da medida pelo mercado de trabalho.”
A conclusão é de uma nota técnica publicada nesta terça-feira (10/2/2026) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que analisa os efeitos econômicos da eventual redução da jornada hoje predominante de 44 horas semanais, associada à escala 6 x 1.
Considerando os grandes setores, como indústria e comércio, nos quais estão mais de 13 milhões de trabalhadores, o impacto direto de uma redução da jornada para 40 horas seria inferior a 1% do custo operacional. Os resultados indicam que a maioria dos setores produtivos apresenta capacidade de absorver aumentos nos custos do trabalho, ainda que alguns segmentos demandem atenção específica” [3].
De outro lado, por meio de um texto bastante didático, Ivo Dall’Acqua Jr. Faz uma boa e elegante defesa à manutenção da jornada da forma como hoje está:
“No cotidiano de hoje, setores vitais da economia, como o comércio, os serviços e o turismo, funcionam de forma contínua —atendendo consumidores durante fins de semana e feriados— e são, sobretudo, formados por micro e pequenas empresas (MPEs). Elas dão a tônica da nossa atividade econômica, porque representam 98% dos negócios e geram cerca de 70% das vagas formais a cada ano. Uma redução abrupta da jornada de trabalho, como propõe a medida em debate, elevaria o valor da hora trabalhada no Brasil em 22%. Se para as empresas de grande porte essa adaptação já seria complexa, para essas MPEs, o efeito seria severo: a maioria delas opera com margens apertadas, por causa dos tributos altos e das incertezas econômicas que elas absorvem. Com custos ainda maiores, essas empresas reduziriam contratações ou teriam que rever seus quadros, o que resultaria na eliminação de pelo menos 1,2 milhão de vagas formais só no 1º ano de vigência da lei. Seria péssimo para um mercado de trabalho que, embora tenha mantido a vitalidade da economia brasileira nos últimos anos, vem perdendo força desde 2024. Ao mesmo tempo, parte dessa mão de obra migraria para a informalidade – o oposto do que os trabalhadores, trabalhadoras e empregadores desejam. Além disso, se o custo da operação subir e a produtividade permanecer igual, parte dessa pressão acabará chegando ao consumidor. Em um cenário no qual a maioria das famílias está endividada, a alta nos preços reduziria o poder de compra e afetaria o próprio nível de emprego. Em outras palavras, a proposta vai levar à inflação e reduzir postos formais de trabalho.” [4]
O que é depois devidamente arrematado pelo excelente economista Alexandre Schwartsman da seguinte forma:
“Fingir que custos inexistem não faz com que magicamente desapareçam; apenas piora a qualidade da decisão política, como já deveríamos ter aprendido.” [5]
Portanto, a análise não deve ser realizada por meio da busca de uma única e absoluta verdade, mas pela compreensão de que a realidade é composta por múltiplas perspectivas e que o entendimento de um problema depende do “lugar” de onde se olha, razão por que há de se estar aberto e sem preconceitos à compreensão de que contradições podem ser aparentes e que verdades diferentes podem coexistir.
A compreensão não passa por uma única escolha dentro de um dilema do tipo “Cila e Caríbdis”, no qual Cila (Scylla) se perfaz num monstro com seis cabeças e 12 braços/pés, que vive em um rochedo alto e devorava marinheiros que passam perto de seu covil, ao passo que Caríbdis (Charybdis) é um monstro marinho que engole grandes quantidades de água e depois a vomita três vezes ao dia, criando um redemoinho fatal.
Dois monstros imortais, que segundo a mitologia [o Dilema de Odisseu (Ulisses): Na Odisseia de Homero], ficavam situados em lados opostos do Estreito de Messina e representavam um dilema mortal: escolher entre dois perigos extremos, em que evitar um significava inevitavelmente enfrentar o outro.
A vida é complexa
O momento abre, portanto, a oportunidade de trazer à balia discussões muito maiores e que são importantíssimas ao tema, tais como o numero de trabalhadores que realmente fazem parte desse universo (empregados CLT) e os que estão fora e desprotegidos (como fazer para integrá-los), quais as reais (e mais importantes empregadoras, vale dizer as micro e pequenas empresas), para quais os custos certamente serão relevantes, eventuais contrapartidas fiscais e, principalmente, como as partes interessadas podem de fato e realmente tratar do tema, por exemplo, via negociação coletiva. E mais: não limitada apenas a contratos de emprego. Isso tudo sem falar em temas como produtividade, qualidade e acima de tudo a impregnação digital nelas.
As soluções têm de passar por discussões de natureza complexa.
Victor Mirshawka Jr. recentemente nos lembrou de que:
“Em 2026, a Inteligência Artificial é o instrumento mais sofisticado já colocado nas mãos da humanidade. Agentes autônomos que planejam, decidem e executam tarefas complexas sem intervenção humana. Modelos de linguagem que leem, escrevem e analisam mais rápido que qualquer equipe. Ferramentas que prometem US$ 4,4 trilhões em produtividade adicional, segundo a McKinsey.”
E mais. Destacou que:
“O relatório “Superagency” da McKinsey, de 2025, revela um dado alarmante: enquanto os executivos C-level estimam que apenas 4% dos funcionários usam IA generativa de forma significativa no trabalho, o número real é de 13%. E enquanto apenas 20% dos líderes acreditam que isso vai crescer no próximo ano, 47% dos próprios funcionários dizem que já estão nesse caminho.” [6]
Segundo a Deloitte no “Global Human Capital Trends 2025, mais de 70% dos trabalhadores dizem que ficariam mais propensos a entrar e permanecer numa empresa que os ajude a prosperar num mundo com IA. Mas apenas 52% dos líderes consideram isso “muito ou criticamente importante…”
O momento oportuno exige trabalho conjunto, coletivo e complexo. Estamos em tempos novos. Há muito já se disse que: “Ninguém coloca remendo de pano novo em roupa velha; porque o remendo força o tecido da roupa e o rasgo aumenta.” (Mateus 9:16). “E ninguém costura um remendo de pano novo em roupa velha, pois o remendo novo repuxa o tecido velho e o rasgo se torna maior.” (Marcos 2:21).
Bora colocar roupas novas.
_____________________________
[2] Pedro Malan. Disponível aqui.
[3] Disponível aqui. Acessado em 18/02/2026.
[5] Jornal O Estado de S.Paulo, Caderno B4 Economia & Negócios, 15 de fevereiro de 2026.
Fonte:sintracimento.org.br