“A escala 6×1 não é neutra, ela organiza a desigualdade no país”, diz Ayer
Representantes de centrais sindicais defenderam na terça-feira (24), em debate na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados, a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem diminuição de salários e o fim da escala 6×1.
O encontro reuniu deputados e sindicalistas para oferecer seus pontos de vista enquanto o tema está em pauta no Congresso Nacional.
O principal argumento defendido de forma conjunta é de que a redução da jornada e, consequentemente, o aumento do período de descanso semanal para dois dias irá aumentar a eficiência e produtividade dos trabalhadores ao mesmo tempo em que permitirá mais tempo de convívio familiar, com reflexos também na saúde física e mental.
O presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro e diretor da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Márcio Ayer, foi enfático ao destacar que “a escala 6×1 não é neutra, ela organiza a desigualdade no país”.
A fala do dirigente é calcada no “Atlas da Escala 6×1”, um verdadeiro raio-X da classe trabalhadora nacional. O estudo, encabeçado pelo sindicato em parceria com outras entidades, foi lançado no ano anterior e captou dados sensíveis para entender as mazelas enfrentadas pelos brasileiros relacionadas à jornada e à escala de trabalho.
Ao apresentar os resultados do Atlas, Ayer destaca que não são opiniões, pois os dados refletem “evidências empíricas traduzidas a partir de múltiplas bases convergentes”. Assim, foram articulados dados de mais de 34 milhões de trabalhadores formais com jornada acima de 40 horas semanais e entrevistas de mais de 4.500 trabalhadores de todo o Brasil.
“Os dados demonstram o seguinte: 67% desses trabalhadores recebem até um salário mínimo e meio; 33% gastam mais de uma hora e meia por dia em deslocamento; mais de 50% sofrem pressão ou assédio; 67% trabalham além da jornada contratada; e 88% têm impacto negativo na vida pessoal. Isso define um padrão, não estamos falando aqui de uma jornada, mas de um regime de vida baseado na exaustão”, critica.
Salário não paga a vida
De acordo com o dirigente da CTB, quando os dados são cruzados com o custo de vida a situação é ainda mais grave.
“Hoje, para viver com o mínimo de estabilidade em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, é necessário entre 5 e 7 mil reais por mês para uma pessoa sozinha ou pelo menos de 3.900 a 5.200 reais para cobrir o básico. Mas o que o Atlas mostra? A maioria ganha até 2.120 reais, ou seja, o trabalhador não consegue reproduzir a sua própria vida com o salário que recebe”, diz.
“Isso explica um elemento central. A ampliação da jornada não é escolha, é uma imposição econômica baseada na extração máxima do lucro”, completa.
Quem sustenta esse modelo?
Conforme Ayer, os dados ainda mostram que quem sustenta o modelo atual de escala 6×1 tem um perfil definido, comprovando a desigualdade que persiste no país.
“Predominância de jovens, negros e periféricos, com 63% pretos e pardos, forte presença das mulheres em funções como caixa e quase 90% são mulheres negras. A escala 6×1 não é neutra, ela organiza a desigualdade no país”, reforça.
Denúncias
Sobre as denúncias sistematizadas que o Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro recebeu de 2015 a 2025, que constam no documento, Ayer explica que não surgem de atos isolados, mas sim de um acúmulo de violações que se tornam insustentáveis.
“Nos nossos dados, 23,2% dessas denúncias são sobre domingos e feriados; 16% sobre jornada prolongada ou falta de descanso; quase 40% tratam diretamente do tempo de trabalho. Essas denúncias mostram que 59,2% trabalham dias seguidos sem folga; 31% acima do limite legal; e 27,9% com domingos frequentes. Também há casos ilegais e absurdos que violam a dignidade da pessoa humana, como o de trabalhadores com 10 a 15 dias consecutivos sem descanso, e essa é a realidade de uma grande parcela dos trabalhadores hoje”, avalia.
Os dados trazidos ainda indicam casos de até 7 violações simultâneas. “O modelo produz adoecimento sistemático. E a sociedade sabe disso. Esse não é um debate isolado. Segundo o Datafolha, 71% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1. Entre aqueles que trabalham até 5 dias, 76% apoiam. Mesmo entre aqueles que trabalham 6 dias ou mais, 68% apoiam. Ou seja, há legitimidade social para mudar esse modelo”, afirma.
Superexploração do trabalho
Ao finalizar sua apresentação, Márcio Ayer salientou que o atual modelo de trabalho no Brasil é caracterizado pela superexploração do trabalho, funcionamento contínuo, baixa remuneração, alto desgaste, acúmulo de violações, adoecimento e falta de perspectiva.
“O que está em jogo nesse debate, que não é técnico, diz respeito ao tempo de vida dos trabalhadores no Brasil. A escala 6×1 retira o domingo, retira o descanso, retira o convívio, retira a saúde e transforma isso em produtividade média. Com mais descanso, a tendência dos trabalhadores é produzir mais e de forma mais qualificada. Se há uma síntese possível, ela é de que o problema central dos trabalhadores hoje é o controle, e enfrentá-lo exige revisão da jornada, garantia real de descanso e limites ao funcionamento contínuo, porque no limite, a escala 6×1 não organiza apenas o trabalho, ela organiza a vida inteira do trabalhador”, conclui o presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro.
Também participaram do debate Antônio Neto, presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB); Francisco Canindé Pegado, Secretário-Geral da União Geral dos Trabalhadores (UGT); e Valeir Ertle, Secretário Nacional de Assuntos Jurídicos da Central Única dos Trabalhadores (CUT), além dos deputados presentes.
VERMELHO
Fonte:sintracimento.org.br