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Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Ladrilhos Hidráulicos, Produtos de Cimento, Fibrocimento e Artefatos de Cimento Armado de Curitiba e Região

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Há um desejo social claro de trabalhar menos e viver mais

Por que o Brasil precisa trabalhar menos para viver mais? Por que a redução da jornada de trabalho voltou ao centro do debate público? Quais são os interesses em disputa? E o que está por trás dos argumentos contrários? Qual o papel do movimento sindical nesta luta?

Para responder a essas questões, conversamos com o historiador e assessor da Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS) João Marcelo Pereira dos Santos sobre esse tema que está mobilizando a classe trabalhadora e será uma das principais pautas dos atos de 1º de Maio.

Brasil de fato RS: A redução da jornada de trabalho voltou ao centro do debate no Brasil. O que explica esse movimento?

João Marcelo Pereira dos Santos: O tema da redução da jornada de trabalho sempre esteve presente nas lutas sindicais e dos trabalhadores e trabalhadoras. Houve um tempo no Brasil, não muito distante em que se trabalhava 12 horas e se “descansava” somente aos domingos. Na década de 1980, uma das grandes reivindicações dos operários era a redução da jornada para 40 horas semanais. A última modificação ocorreu na Constituição de 1988, que reduziu de 48 horas semanais para 44, que está em vigor até hoje.

Nos últimos anos, especialmente após as eleições de 2022, esse tema ganhou força na sociedade. A campanha em torno da ideia de “vida além do trabalho” e o questionamento da escala 6×1 trouxeram para o debate público algo que sempre foi central para a classe trabalhadora. Hoje, não se trata mais de uma pauta restrita ao movimento sindical, é uma demanda social ampla, com forte apoio popular e presença no Congresso Nacional.

Existe apoio da população para essa proposta?

Sim, e isso é um dado muito importante. Pesquisas recentes mostram que a maioria dos brasileiros apoia tanto a redução da jornada quanto o fim da escala 6×1. Entre jovens e mulheres, esse apoio é ainda maior. Ou seja, há um desejo social claro de trabalhar menos e viver mais.

Os críticos dizem que o brasileiro já trabalha pouco. Isso é verdade?

Mentira. Os dados mostram exatamente o contrário. Milhões de trabalhadores no Brasil cumprem jornadas superiores ao limite legal de 44 horas semanais, e a maioria trabalha mais de 40 horas. Essa narrativa de que o brasileiro trabalha pouco não se sustenta na realidade.

Os trabalhadores e trabalhadoras que vivem com baixos salários estão sempre no corre corre e em um estado crônico de cansaço. No caso das mulheres a exaustão é mais extremada, recaem sobre seus ombros o trabalho doméstico e o cuidado da família. Para as mulheres o excesso de trabalho é algo insuportável.

Um dos principais argumentos contrários é que a redução da jornada aumentaria os custos das empresas. Como você responde a isso?

Esse argumento ignora vários fatores. Primeiro, experiências internacionais mostram que a redução da jornada não necessariamente reduz a produtividade, em muitos casos, ela melhora. Isso acontece porque as empresas reorganizam seus processos, eliminam desperdícios e tornam o trabalho mais eficiente.

Reduzir a jornada é também uma forma de investir em saúde e produtividade no médio e longo prazo

Além disso, o excesso de trabalho também gera custos: adoecimento, afastamentos, rotatividade e queda de desempenho. Reduzir a jornada é também uma forma de investir em saúde e produtividade no médio e longo prazo. O excesso de trabalho custa muito caro, para o trabalhador que perde com a sua saúde física e mental. Para o INSS que acaba tendo que arcar com os custos de afastamentos e os empregadores com o baixo rendimento do trabalho.

Fala-se muito que a tecnologia veio para nos aliviar, mas não é o que acontece. O pouco tempo livre está sendo inteiramente consumido pela rede digital e pela sobrecarga de imagem e informação. Por incrível que parece até o nosso tempo livre está sendo aproveitado pelas big tecs.

E em relação à produtividade? Trabalhar menos não significa produzir menos?

Não existe uma relação direta entre horas trabalhadas e produtividade. A produtividade depende de tecnologia, organização do trabalho, qualificação profissional e gestão. Trabalhadores exaustos tendem a errar mais, adoecer e produzir menos. Já trabalhadores com mais tempo de descanso e qualidade de vida tendem a ser mais eficientes.

Nos últimos 40 anos, houve uma grande mudança no paradigma produtivo com a introdução de novas tecnologias. Os ganhos de produtividade são imensos. O problema é que quase nada desses ganhos de produtividade estão sendo repassados para quem trabalha.

A redução da jornada de trabalho é um mecanismo de maior justiça social e de combate a desigualdade. Não podemos achar normal que 1% da população mundial, os super-ricos, detenha em riqueza acumulada o equivalente a 99% do restante da população.

Outro argumento recorrente é que a redução da jornada pode gerar desemprego ou aumentar a informalidade. Isso procede?

Não necessariamente. A informalidade no Brasil é um problema estrutural, que não depende da duração da jornada. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o grande gerador da informalidade no Brasil é a impunidade, é lucrativo burlar a legislação.

A redução da jornada de trabalho é um mecanismo de maior justiça social e de combate a desigualdade

A redução da jornada pode estimular a criação de empregos, já que as empresas podem precisar contratar mais trabalhadores para manter o nível de produção. Trabalhar menos para que todos trabalhem é a tendência civilizatória. Mas parece que os “donos do poder”, estão flertando com a barbárie e a destruição.

E quanto à competitividade internacional do Brasil? Existe risco de perda de espaço?

A competitividade de um país não depende apenas da jornada de trabalho. Infraestrutura, tecnologia, inovação e qualificação da força de trabalho são fatores muito mais determinantes. Apostar em jornadas longas e salários baixos não é estratégia de desenvolvimento, é sinal de atraso.

Alguns dizem que “não é o momento” para esse tipo de mudança. Como você avalia essa posição?

Esse argumento sempre aparece quando se trata de ampliar direitos. Historicamente, nunca foi “o momento” para o empresariado. Mas se olharmos o contexto atual, temos exatamente o contrário: avanços tecnológicos, mudanças no mundo do trabalho e um desejo social claro por mais qualidade de vida. É engraçado esse argumento. A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) anda pregando que é necessário mais tempo para fazer esse debate. É uma hipocrisia, faz 40 anos que o movimento sindical pauta essa questão.

Ano após ano essa reivindicação é colocada nas mesas de negociação com os empregadores e é ignorada solenemente. Quando é do interesse dos empregadores eles “passam o trator”. A reforma da Previdência demorou 9 meses e a trabalhista 7 meses, ambas retiraram direitos fundamentais.

A redução da jornada funcionaria em todos os setores?

Há setores que exigem funcionamento contínuo, como saúde e segurança, mas isso não impede a redução da jornada. O que muda é a organização do trabalho: escalas, contratações e gestão. Inclusive, nesses setores, reduzir a jornada pode melhorar a qualidade do serviço e reduzir o adoecimento dos trabalhadores e trabalhadoras.

As organizações empresariais alegam que essa bandeira é ideológica e eleitoreira?

De forma alguma. A redução da jornada é uma pauta civilizatória. Trata-se de garantir condições dignas de vida em um contexto de profundas transformações tecnológicas e sociais. Não faz sentido manter jornadas pensadas para outra época, quando a produtividade era muito menor.

Qual é, então, o principal significado dessa luta hoje?

A luta pela redução da jornada é, no fundo, uma disputa sobre o sentido do trabalho na sociedade. É uma luta por mais empregos, mais saúde, mais tempo livre e mais qualidade de vida.

Não se trata de trabalhar menos por trabalhar menos, mas de trabalhar melhor e viver melhor. Viver melhor e produzir mais.

Brasil está pronto para reduzir a jornada de trabalho?

Sim. A sociedade já demonstrou que está pronta. O que está em disputa agora são os interesses econômicos e políticos que resistem a essa mudança. Como sempre na história, nenhum avanço virá sem mobilização.

A Marcha a Brasília que as centrais sindicais realizaram foi fundamental para encorajar o governo. O Projeto de Lei 1838/2026 enviado pelo presidente Lula ao Congresso vai acelerar o trâmite. Forçará o Congresso Nacional a se posicionar nos próximos meses.

A redução da jornada é uma pauta civilizatória. Trata-se de garantir condições dignas de vida em um contexto de profundas transformações tecnológicas e sociais

Não é um movimento contraditório com o projeto que está sendo apreciado pela Comissão de Justiça do Congresso?

O que os parlamentares contrários a redução da jornada querem é protelar a votação através de discussões intermináveis. As discussões do PL 1838/2026 mostrarão quem é quem. É isso que eles querem evitar a todo custo.

Depois da Marcha a Brasília o que podemos esperar das centrais sindicais?

Os empresários vão jogar pesado. A mídia corporativa usará de todos os meios para causar confusão junto aos trabalhadores e trabalhadoras. Eles querem convencer a classe trabalhadora que a redução da jornada fará um grande mal ao país. Eles tentarão distorcer o projeto com narrativas falaciosas.

Cabe as lideranças sindicais dialogar intensamente com os trabalhadores e trabalhadoras. Explicar cada detalhe. É fundamental expor para sociedade quem é contrário e quem é a favor. Isso se faz com trabalho de base. E os atos do 1º de Maio deste ano serão fundamentais para garantir essa conquista.

Fonte: Brasil de Fato

DM TEM DEBATE

https://www.dmtemdebate.com.br/ha-um-desejo-social-claro-de-trabalhar-menos-e-viver-mais/

 

Fonte:sintracimento.org.br

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